O Necessário Desconforto da Subjetividade

Eu, como engenheiro eletrônico e com uma formação que privilegiou o raciocínio científico positivista, no começo da minha carreira como consultor – ainda como estagiário – entendia e dava muita ênfase ao campo do lógico, da ferramenta e da objetividade. Mas só isso não dá conta da gestão. Afinal, empresas são feitas de gente, de relações sociais e redes de poder.

A empresa tem cultura, mitos, estilos, discursos circulantes, temas proibidos, tabus. Por exemplo, uma estratégia que só foi construída pela lógica, sem considerar fatores políticos internos e a dinâmica das relações, muito provavelmente será apenas um papel (ou um conjunto deles), com poucos efeitos práticos.

A organização vive de objetividade e subjetividade. Mas por que tantos gestores e empresários continuam privilegiando ou até mesmo adotando a visão objetiva da organização, negando ou desprezando a subjetividade? Minha hipótese, até pela autorreflexão, é única: a objetividade dá certezas e seguranças. Reconhecer a subjetividade, inclusive os movimentos inconscientes de si mesmo e dos outros, nos coloca num lugar muito mais incômodo e vulnerável. Negar esta realidade aumenta o conforto.

Acontece que negando esta face da realidade, a ação do gestor e do líder se limita. Fazer as coisas acontecerem, mobilizando gente para dar resultados e inovar, requer da gestão um olhar sobre a subjetividade, equilibrando os paradigmas da administração científica e da psicossociologia. O que rompe com a situação de conforto, já que muitas escolas de gestão formam para o objetivo, com normas, regras, manuais e práticas “corretas”, dando o pretexto para o gestor de que, se ele cuidar de agir conforme o manual, então está sendo um bom gestor e está cumprindo seu papel.

Enfrentar a subjetividade significa encarar a limitação de ter apenas uma compreensão parcial e ambivalente da realidade e de “navegar pelo desconhecido”. Se as pessoas querem certezas insuficientes, o caminho é investir em manuais, processos, ferramentas, planos, que muitas vezes podem ser decididos “de cima para baixo”. Se as pessoas querem resultados sustentáveis, precisam investir em gestão, acordos, padrões de atitudes e discussões estratégicas, investindo no diálogo e na participação ampla das pessoas, exercitando a negociação de modo permanente.

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