O dia a dia da gestão é muito exigente, com pressões e emergências constantes, fragmentação do trabalho, muitos contatos e articulações e um sem número de interrupções. Todavia, se ficar refém do cotidiano, o gestor perde a perspectiva de uma face fundamental de seu trabalho: potencializar as outras pessoas ao seu redor, promovendo o aprendizado e a inovação, indo além dos aperfeiçoamentos incrementais de curto prazo.

As organizações até expressam essas intenções de inovação, aprendizado, flexibilidade e visão de longo prazo. Mas muitas deixam estes pontos apenas no discurso. Não porque agem deliberadamente para isso, mas porque o sistema de administração acaba pressionando indivíduos e grupos por conformidade a normas e processos, fazendo prevalecer a cultura baseada na submissão e no medo (“melhor não comprar essa briga”; “melhor não discordar, não vai dar em nada mesmo”) e a definição de metas sem possibilidade de reflexão conjunta, bloqueando a possibilidade de valiosas contribuições e erodindo a motivação e curiosidade das pessoas.

Construir empresas capazes de se adaptarem a uma realidade que está sempre mudando (Mundo VUCA – volátil, incerto, complexo e ambíguo) requer outro tipo de pensamento e atuação. As organizações precisam aprender como organismos e necessitam de pessoas mobilizadas para construir o futuro. Para fazer isso acontecer, três grandes recomendações podem ser seguidas:

 

  1. Instigue as aspirações pessoais e promova a convergência para uma visão de futuro empresarial que faça sentido nos campos coletivo e individual.

É necessária a construção de uma visão genuína do futuro compartilhado que se deseja criar, respondendo a pergunta: “o que queremos criar?” Mas não adianta fazer isso pela imposição: a visão é a composição de um mosaico de imagens que pertencem às pessoas que fazem parte da organização, promovendo a coerência das ações e desenvolvendo um senso de comunidade.

 

  1. Estimule o desenvolvimento de conversações reflexivas que sejam capazes de gerar conceitos e trocas baseadas nas diferentes perspectivas e visões de mundo das equipes.

Promova o intercâmbio e a abertura para modelos mentais diversos e, ao mesmo tempo, estimule a abertura de cada um para reconhecer seus padrões de pensamento e rompê-los, trazendo novas perspectivas. A explicitação é viabilizada pelo desenvolvimento de conversas ricas em aprendizado, equilibrando indagação e argumentação, com abertura real para a exposição de pensamentos e para influência dos outros.

É complementar a esta prática desmontar a mística de ver os pensamentos como sendo nossos, dando visibilidade à sua natureza participativa. Desta forma, desarticula-se a lógica de “disputar autoria” ou de “fazer prevalecer as suas ideias, vencendo argumentos”. Aumenta-se o aprendizado e diminui-se a retórica. Assim, as pessoas começam a assumir uma posição mais criativa e menos reativa.

 

  1. Promova o entendimento de uma complexidade dinâmica, nas quais as relações de causa e efeito são sutis e os efeitos estão temporalmente distantes das intervenções.

Isso exige um pensamento sistêmico (grande conceito trazido para a administração por Peter Senge, em A Quinta Disciplina, mas presente há mais tempo nos estudos dos servomecanismos da engenharia eletrônica). As formas tradicionais de pensar, com uso da lógica linear, nos levam a efetuar mudanças de baixo potencial: não vemos as estruturas subjacentes às ações. Resolvemos as situações com foco nos sintomas, onde o estresse é maior.

Para promover o pensamento sistêmico, é necessária uma análise de problemas que busque compreender a inter-relação de variáveis para além de relações imediatas de causa e efeito, considerando também que os efeitos de intervenções podem demorar a acontecer e que a mesma ação pode levar a efeitos drasticamente diferentes a curto e longo prazo. Ou seja: a solução estrutural de um problema pode fazer a situação piorar no curto prazo ou o (que pode parecer) a solução no curto prazo pode resultar na deterioração da situação no médio prazo. A busca é pelo mapeamento de processos de mudança em vez de simples fotos instantâneas.

Como constatado por Senge: “Infelizmente, para a maioria das pessoas, pensamento sistêmico significa combater complexidade com complexidade, gerando soluções cada vez mais detalhadas para problemas cada vez mais complexos”, gerando complicação e não solução. A proposta aqui é trazer algumas reflexões que levem a outros caminhos.

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