Para que Servem o Escritório e o Home Office

Um dos temas mais debatidos sobre os efeitos do pós-pandemia é o futuro dos escritórios e a expansão do home office. Mas será que a tendência é que os escritórios se acabem? Essa resposta depende da resposta a outra pergunta: para que serve o escritório?

Escritórios não são lugares de trabalho. São lugares de encontro.

Estudos recentes mostram que a produtividade e satisfação das pessoas reduziu nas primeiras semanas de isolamento, mas foi revertida num segundo momento, com resultados até melhores que os indicadores pré-isolamento. Mas uma organização não sobrevive no médio prazo apenas com eficiência. Michael Porter, em seu clássico artigo sobre o que é estratégia, já abordava este ponto: “estratégia não é eficiência operacional”.

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Photo by Brooke Cagle on Unsplash

Os escritórios são locais que promovem a “colaboração dos vínculos fracos”, aquele encontro de pessoas que não convivem e se relacionam cotidianamente, mas que traz diferentes vivências e perspectivas e que promovem a inovação. Um dos exemplos mais fortes disto é o Building 20 do MIT, que induzia o contato de pesquisadores de disciplinas diversas e produziu inovações importantes como a física de base para o uso das micro-ondas, o radar e foi o embrião da Bose, referência em acústica até os dias atuais. Estudos recentes apontam aumento no contato de pessoas que já eram próximas e queda significativa nos contatos de colaboração de vínculos fracos após o lockdown, o que pode ter impacto negativo na capacidade de inovação das empresas.

Como lugar de encontro, os escritórios também promovem a construção e disseminação da cultura empresarial. Os comportamentos são vistos e reproduzidos, a estrutura física e os artefatos presentes criam representações sobre valores, atitudes e estilo. Além disso, a natureza gregária do ser humano também pede o encontro, sendo a carência de ver e de estar com os colegas um dos pontos mais apontados como negativo pelas equipes. Estar junto dos colegas eleva o moral e a motivação das pessoas.

Além disso, o escritório impacta positivamente a saúde mental da maioria das pessoas. Ele ajuda a criar rotinas (coisa que muitas pessoas têm dificuldade em fazer) e cria uma barreira entre a casa e o trabalho, ponto que foi levantado em pesquisas recentes como fator de estresse e desgaste nas pessoas, que têm trabalhado mais horas e sentido mais desgaste. Este impacto é sentido mais fortemente no público feminino, que, por conta dos impactos do machismo estrutural de nossa sociedade, acaba sobrecarregado com atividades domésticas simplesmente pelo fato de estar mais em casa.

Todavia, o home office também traz ganhos importantes e valorizados pelas pessoas:

  • economiza-se tempo de deslocamento, o que impacta positivamente no bem-estar físico e mental, reduzindo o cansaço;
  • ampliam-se as possibilidades de trabalhar e colaborar com pessoas de todo o mundo;
  • viagens tornam-se desnecessárias para presença em reuniões e treinamentos;
  • deslocamentos de baixo custo-benefício serão eliminados (trânsito de 1h para ir e 1h para voltar para uma reunião de 1h de duração);
  • a alimentação em casa tende a ser mais saudável que a alimentação na rua;
  • é possível trabalhar de modo mais confortável e mais à vontade;
  • amplia-se a proximidade da família e;
  • a conciliação de atividades domésticas e compromissos de trabalho torna-se mais viável.

Alguns dos ganhos do home office estão diretamente (e dialeticamente) ligados com suas perdas.

Por isso, não se trata de escolher entre um e outro. Hoje em dia, a grande maioria das empresas e profissionais foi forçada a experimentar e aprender a trabalhar de forma remota. Esse aprendizado vem para ficar e para mostrar que é possível fazer muita coisa à qual se resistia anteriormente.

Claramente o futuro é híbrido, com mais home office que no passado, mas o escritório não morreu e não deve morrer. Apenas funcionará de forma diferente.

Quais os seus planos para uma realidade diferente? Como sua empresa funcionará?

Como você organizará seus espaços físicos? Que atributos eles devem ter neste novo contexto?

 

5 respostas
  1. Emanuel
    Emanuel says:

    Penso do mesmo jeito. O ser humano é um ser social. Acredito que home office integral acaba enfraquecendo a cultura organizacional e impactando em outras métricas (até intangíveis) da organização. De outro lado, é inquestionável as vantagens do home office (mais tempo com os filhos, por exemplo). Acredito que para aproveitarmos melhor essa nova perspectiva seja um equilíbrio entre escritório e home office.

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  2. Fred Perman
    Fred Perman says:

    É isso aí, Fernando, análise perfeita.
    Em momentos de ruptura, as pessoas tendem a acreditar que o novo sempre vai eliminar completamente o velho, foi assim com a TV, que eliminaria o rádio e o cinema, e a internet, que eliminaria a TV , rádio, cinema, etc….e nada disso aconteceu, na realidade as coisas vão se transformando e incorporando os benefícios de uma nova tecnologia ou comportamento ao que já existe. No caso dos home offices vai ser a mesma coisa, os escritórios não vão ( e não devem! ) acabar, mas sim incorporar os benefícios que o home office forçado nos obrigou a aprender.

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  3. Felipe Giannini
    Felipe Giannini says:

    Trabalhar em casa é entrar em conflito com determinadas áreas nas quais o foco de trabalho é justamente o conhecimento do público-alvo como o marketing digital.

    É fato que nem todas as pessoas se adaptarão a essa modalidade, justamente por priorizar o contato presencial. Cabe ao empresário adaptar essa modalidade a depender do perfil do profissional em questão.

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